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O frio intenso que chegou à Argentina nesta semana, com temperaturas abaixo de zero em boa parte do país, agravou os cortes no fornecimento de gás à indústria. Cerca de 300 empresas de médio e grande porte tiveram o abastecimento interrompido entre 90% e 100% do volume que costumam consumir diariamente.
Para a União Industrial Argentina (UIA), os cortes se tornaram "a principal restrição para o crescimento da produção no curto prazo". A entidade apontou alta de 14,3% da indústria em maio, em relação ao mesmo mês de 2009, e prevê expansão de 7% a 8% para todo o ano. Segundo fontes da UIA, ainda é cedo para rever essa estimativa, que dependerá da duração e da intensidade dos cortes de gás.
O Enargas, órgão regulador da cadeia do gás natural, disse em comunicado que está "plenamente garantido" o abastecimento a residências e veículos. Quanto à indústria, minimizou os cortes, mas não se comprometeu com o fim das restrições, quer "permanecerão até que se revertam as atuais condições climáticas". Segundo o órgão, o fornecimento diminuiu para empresas com contratos passíveis de interrupção e para grandes indústrias com alternativas.
Esse é o caso da cimenteira Loma Negra, controlada pela brasileira Camargo Corrêa, que ajustou fornos para funcionarem com coque de petróleo. A Refinor, refinaria que tem participação minoritária da Petrobras, também teria sofrido restrições.
A capacidade de transporte na rede de gasodutos do país é de cerca de 125 milhões de metros cúbicos por dia. Normalmente, a demanda está distribuída da seguinte forma: de 45 milhões a 50 milhões de m³/dia para a indústria, 18 milhões de m³/dia para a geração de energia elétrica e 8 milhões de m³/dia para o abastecimento à frota de 1,8 milhão de veículos que rodam com gás natural.
O problema é que a conta não fechar no inverno, quando a demanda residencial e do comércio sobe de 20 milhões para até 90 milhões de m³/dia, devido ao uso mais intenso da calefação.
A UIA pediu ao governo que mude a distribuição do racionamento, deixando de punir só a indústria, e inclua nos cortes o fornecimento de gás veicular, já que os automóveis têm a alternativa de usar diesel ou gasolina para rodar.
O próximo setor que deverá sofrer com as restrições, no entanto, é o das usinas termelétricas. Elas representam pouco mais de metade da matriz elétrica argentina. Muitas podem funcionar também com óleo combustível. Um corte de 5 milhões de m³/dia faria a geração diminuir cerca de 1.200 megawatts (MW) e aumentaria a necessidade de importar óleo.
Para complicar ainda mais a equação energética, a Argentina registrou na terça-feira à noite um recorde histórico na demanda de eletricidade, que chegou a 19.702 MW. A demanda disparou por causa da recuperação da economia, que fez o consumo de energia elétrica crescer 5,3% no primeiro semestre, e do uso de aparelhos de aquecimento. Para aumentar a oferta, a Argentina está importando 900 MW em média por dia do Brasil, que serão devolvidos a partir de agosto.
O Ministério do Planejamento informou ontem que entrará em operação, até o fim, um novo gasoduto perto do Estreito de Magalhães (extremo sul do país) que expandirá a capacidade de transporte em mais 5 milhões de m³/dia. O problema, segundo analistas, é que já não há oferta suficiente: a produção de gás diminuiu 4,1% no primeiro trimestre do ano, chegando a 132 milhões de m³/dia. Em 2005, ela alcançava 140 milhões de m³/dia.
Valor Econômico - 15/07/2010
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