|
O sentimento sobre a necessidade de proteção para o bom desenvolvimento da vida no trabalho tem percorrido muitos caminhos: a segurança no trabalho, o combate à doença ocupacional, as condições de vida psicossocial, a responsabilidade empresarial do público interno, a sustentabilidade, a felicidade no trabalho e, mais recentemente, a superação da crise econômica e financeira. Será que isso é possível?
Com a crise, uma nova visão de bem-estar precisa ser arquitetada: como viver
bem com quadros de pessoal enxutos, sobrecarregados de relatórios, contratos
precários, fornecedores, instabilidade do mercado financeiro e necessidade de
contínua qualificação.
Qualidade de vida pessoal e organizacional é o conjunto de escolhas de
bem-estar visando os equilíbrios biológico, psicológico, social e
organizacional. O equilíbrio é desejado, mas, na prática, sobretudo em
momentos como este, há um desalento pela possibilidade de desemprego ou
assédio moral.
Alguns caminhos podem auxiliar nos primeiros passos para o encontro da
qualidade de vida verdadeira -que toca a vontade de viver mais e melhor. Os
passos iniciais são o cuidado pessoal, os bons hábitos do grupo de
convivência e os valores de bem-estar no trabalho.
A consciência administrativa sobre as necessidades das pessoas e os novos
desafios no trabalho têm estimulado a estruturação das atividades de
qualidade de vida nas empresas, caracterizando uma nova competência: a GQVT
-gestão da qualidade de vida no trabalho.
A GQVT é o conjunto de escolhas de bem-estar -único e personalizado- em
busca do equilíbrio a partir do vínculo com o trabalho. Esse equilíbrio,
orientado por domínios BPSO, gera marcadores específicos de cada cultura
organizacional e de dados consolidados em estudos científicos e práticas
empresariais.
De forma geral, observam-se as seguintes associações entre as ações e os
domínios BPSO, com os aspectos essenciais para a qualidade de vida no trabalho:
- hábitos saudáveis associam-se à dimensão biológica;
- autoestima e reconhecimento, à dimensão psicológica;
- consumo e educação, à dimensão social;
- e ergonomia e clima, à dimensão organizacional.
O fundamento do modelo origina-se na medicina psicossomática, que propõe
uma visão integrada sob o princípio de que todos têm potencialidades
biológicas, psicológicas e sociais que respondem simultaneamente às
condições de vida.
A qualidade de vida no foco da gestão prevê resultados de natureza pessoal,
como o balanço saudável da vida particular e do trabalho, a atenção à
vocação laboral e aos novos padrões de consumo e a aproximação das camadas
sociais.
Já as organizações, ao abrirem espaço para a qualidade de vida das
pessoas, agregam valor de bem-estar comprometido e qualificado em todos os
níveis.
Ao lado dos tradicionais cuidados como alimentação, atividade física e
relacionamentos saudáveis, surgem com a crise muitas novas formas de cuidar da
qualidade de vida. Entre as novas práticas temos atitude positiva,
qualificação e ética no exercício profissional, orientações sobre custos e
práticas de consumo responsável e valorização da cidadania.
Nas empresas, o que por muitos anos foram ações aleatórias de qualidade de
vida no trabalho hoje evoluiu para um crescente conjunto de valores e práticas
de bem-estar, de forma a atender o maior número possível de empresas e
pessoas. A crise, como em outros tantos desafios de vida, abriu novas portas
para cuidados pessoal, organizacional e comunitário.
Mas ainda há muito para ser feito. A gestão do bem-estar está amadurecendo
como algo indispensável à vida. A crise traz o desafio de superação e a
oportunidade de refletir e transformar a vida. O caminho é utilizar nossas
energias para superá-la e aprender com ela.
A crise abriu novas portas para os cuidados pessoal, comunitário e
organizacional
Fonte: Folha de São Paulo - Autor - Ana Cristina Limongi -
França, psicóloga e professora associada da FEA-USP (Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade), é coordenadora do Núcleo USP de Gestão da
Qualidade de Vida no Trabalho. |